
Faro [Portugal], 27.01.2010, Semana 05, Quarta-feira, 19:09
Editamos nesta News Release, com cortesia e na íntegra, artigo editado na versão electrónica do jornal
Público, que nos relata episódios que os clientes da
CP, passam no dia-a-dia, naquilo a que se refere ao sistema tarifário praticado pela operadora.
Viajar de comboio pelo país pode dar muito trabalho e a culpa é da manta de retalhos em que a transportadora ferroviária se transformou. CP Lisboa, CP Porto, CP Regional e CP Longo Curso trabalham com tarifários e horários que nem sempre são integrados. Imaginámos diferentes viagens para mostrar as dificuldades dos passageiros. Por Carlos Cipriano.
O senhor Manuel foi emigrante e quis reviver com a neta a viagem de dez horas que fez do Bombarral para Vilar Formoso, quando tentou o "salto" para a França em 1968. Pensando que hoje a coisa era mais rápida, nem consultou horários e apresentou-se na estação do Bombarral para o comboio das oito da manhã.
Aventurou-se e demorou 14 horas. A viagem que, 40 anos antes, realizara com um único transbordo teve de ser feita agora com - pasme-se! - cinco comboios.
Eis a aventura: primeiro, um comboio para as Caldas da Rainha, onde mudou para outra composição que o deixou no meio dos arrozais do Mondego num apeadeiro chamado Bifurcação de Lares. Ali apanhou um suburbano vindo da Figueira da Foz para Coimbra e depois outro comboio para a Guarda onde, pela última vez, mudou para o regional para Vilar Formoso. E, como se não bastasse o tempo de viagem e os transbordos, o bilhete vendido pela CP foi mais caro, porque resultou do somatório de todas estas viagens: 23,65 euros. Mais do que os 20 euros de uma viagem de Lisboa para Vilar Formoso em comboio directo. Ou seja: na CP viajar 220 quilómetros em vários regionais (por falta de alternativa) é mais dispendioso do que uma viagem directa de 434 quilómetros.
O senhor Silva vive em Queluz e quis visitar um colega em Torres Vedras. Há anos que não viajava de comboio em Portugal, mas pareceu-lhe esta a melhor opção, já que a tinha logo ali, bem perto de casa. A primeira surpresa foi logo na estação de Queluz. Que não podia comprar um bilhete directo para Torres, dizem-lhe na bilheteira. Que desembolsasse primeiro 1,20 euros até ao Cacém e que comprasse lá o bilhete para o outro comboio (mais 3,15 euros) para Torres Vedras.
Mas afinal isto é só uma viagem de 50 quilómetros, pensou. Era seu desejo comprar o bilhete de ida e volta, mas lá teve de adquirir novo título para o seu destino. Já no regresso perguntou se lhe podiam vender os dois bilhetes em Torres Vedras, mas o ferroviário perguntou-lhe para quê, se podia vender um único bilhete directo. O senhor Silva espantou-se: para a ida teve de comprar dois bilhetes, mas para a volta já podia fazer a viagem com um só?
Que confusão. Como se não bastasse demorar uma hora e meia para fazer 50 quilómetros a passo de caracol, ainda teve de ouvir uma explicação sobre as "unidades de negócio" da CP. Que ali em Torres, aquilo era a CP Regional, mas que em Queluz era a CP Lisboa.
E é esta a história que teria para contar, se o senhor Silva existisse. A personagem, como todas as que viajam em comboio neste texto, não é real. Ao contrário da esquizofrenia a que os passageiros da CP estão sujeitos, que é bem real e a razão destas viagens que imaginámos.
O casal Gonçalves vive em Lisboa e resolveu passar o fim-de-semana em Beja. Optou pelo comboio. De Entrecampos ao destino foram só 2h10 de viagem, num Intercidades ao preço de 11,50 euros por pessoa. Mas já o regresso foi uma verdadeira surpresa: uma automotora desconfortável a tremelicar pela planície até Casa Branca, onde o casal apanhou, aliviado, o Intercidades vindo de Évora para Lisboa. Ao todo demorou mais tempo do que na ida, viajou num comboio de categoria inferior e teve um transbordo. Por isso pagou 14,40 euros, ou seja, mais 2,90 euros do que na ida.
Tarifa não quilométrica
A Rute, que queria ir de Coimbra ao Porto, também se surpreendeu quando o revisor do comboio regional lhe pediu mais 3,50 euros para revalidar o bilhete. A Rute estava em Coimbra e o Alfa Pendular estava atrasado devido a um problema com um passageiro. Encontrou uma amiga que ia apanhar o regional para Aveiro e nem pensou duas vezes, julgando que o seu bilhete era mais do que suficiente para viajar no vagaroso regional até à Invicta. Na Suíça, um país com a dimensão de Portugal onde estivera, podia-se apanhar um comboio a qualquer hora porque as tarifas são quilométricas e não é preciso marcação de lugar.
Mas não. Na CP um bilhete de 15 euros não permite viajar num comboio onde só se paga 8,10 euros.
Também o Vítor ficou espantado quando descobriu que para viajar de Guimarães para Lisboa pagaria 21,65 euros, quando em sentido contrário tinha pago 20,50 euros. Com a diferença de que agora tinha de apanhar um comboio que parava em todo o lado até Campanhã e demorava mais uma hora na vinda no que na ida. E o João, que queria ir de Estarreja para Azambuja (ambas estações da linha do Norte), teve de se aventurar em três comboios porque, apesar de viajar no principal eixo ferroviário do país, não tinha ligações directas.
Paremos então com as personagens fictícias com dificuldades que qualquer passageiro real pode sentir e passemos ao mundo que existe. Viajar de comboio pelo país pode dar muito trabalho e a culpa é da manta de retalhos em que a transportadora ferroviária de Portugal se transformou, quando foi dividida em quatro unidades de negócio - CP Lisboa, CP Porto, CP Regional e CP Longo Curso. Há bilheteiras diferentes nas estações e os gabinetes de apoio ao cliente rejeitam reclamações ou pedidos de informação que não sejam da sua unidade de negócios.
"A lógica da CP em unidades de negócios era no sentido da privatização. Essa situação originou que as unidades trabalhassem de forma autónoma e as forças integradoras não conseguiram vencer essa força autónoma", diz o presidente da CP, Cardoso dos Reis.
A verdade é que cada unidade de negócios funciona como uma "mini CP" e tem a sua própria frota de material circulante e quadro de pessoal (maquinistas e revisores). José Rafael Nascimento, professor de Marketing no Instituto Superior de Comunicação Empresarial, diz que estas situações vividas pelos passageiros da CP contrariam o paradigma da conveniência, em que as empresas procuram prestar serviços completos e integrados aos seus clientes, o que não é o caso do transporte ferroviário em Portugal, com um tarifário incompreensível e uma exploração baseada em percursos.
Incompreensível? Há razões - às quais os clientes da CP são alheios - que podem explicar esta forma de gestão. A transportadora pública, ao contrário do que acontece com as suas congéneres europeias, não tem um contrato de prestação de serviços com o Estado. Em cada ano, o governo atribui verbas residuais a título de indemnizações compensatórias para a empresa. Como o serviço regional é o que dá mais prejuízo, a CP prefere vender percursos a aplicar uma tarifação quilométrica, mais justa e mais compreensível para os passageiros. É por isso que uma viagem com diversos transbordos (e são tantos num país tão pequeno como Portugal) um cliente da CP está a pagar uma nova viagem sempre que muda de um comboio para outro. Desde Dezembro de 2009, por exemplo, a CP acabou com os comboios directos desde o Barreiro para o Algarve e obriga os passageiros a apanhar duas composições e a pagar mais caro.
Algo que, como refere Nélson Oliveira, engenheiro com pós-graduação em caminhos-de-ferro, "não acontece noutras redes estrangeiras de referência [SNCF em França, RENFE em Espanha, DB na Alemanha e Trenitália] onde os horários dos comboios mais lentos são conjugados com os dos rápidos para assegurar a função de recolectores e distribuidores".
Para este especialista, também presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos de Ferro, "as unidades de negócios centram-se na procura dos melhores resultados financeiros, o que nem sempre resulta em favor de um melhor serviço, pois numa exploração conjunta os benefícios de uns compensavam os prejuízos de outros". Um exemplo: como os regionais dão prejuízo, cada vez há menos oferta, "mas se os horários destes fossem conjugados com os dos comboios rápidos, como eram dantes, os regionais traziam passageiros para os serviços de longo curso, e o prejuízo era compensado".
Nélson Oliveira, engenheiro
Comentário da
LUISFER sobre esta mesma notícia:
1 - Devemos salientar em primeiro lugar, que é uma excepção esta notícia, visto que a maioria das mesmas editadas nos media sobre matéria ferroviária, são muitas vezes mal feitas e mal escritas, com muitos erros de interpretação, por falta de cultura ferroviária elementar, como muito bem, eles (jornalistas) e todos sabem. Esta é uma excepção, porque não contém erros, é feita por uma pessoa que consideramos pela sua cultura ferroviária, como é o Engº Nélson Oliveira, que como os amigos leitores sabem é desde há vários anos o presidente da APAC.
2 - São muitos os leitores que já nos conhecem muito bem e sabem como defendemos a nossa (minha)
CP, como mais ninguém, mas também sabem os mesmos leitores, que ao longo dos anos, temos criticado com tristeza e amargura muitas vezes, opções e estratégias que a
CP às vezes faz. Defendemos acima de tudo o nome
CP e quem lá está, mas não deixamos de ter a nossa opinão e divergir, quando pensamos que isto ou aquilo não é o mais correcto.
3 - Com uma argumentação muito diferente - em relação ao texto do Presidente da APAC - e com incentivo para más práticas, já no passado fizemos neste blogue forte crítica à denúncia espalhafatosa que o Jornal de Barcelos fez sobre as tarifas da
CP relativas a Barcelos/Porto, querendo à força equiparar-se a Braga, para a mesma relação para o Porto, pelo que fomos criticados na altura em defender a
CP, numa lógica diferente da do jornal, porque legítima, pensamos nós e uma das várias críticas que recebemos foi por parte de uma jornalista da TVI, que na altura, falou connosco ao telefone sobre esta situação que queriamos denunciar via TVI e nos disse, que não conseguia compreender que estivessemos a defender a
CP e perguntando o que é que nós tinhamos a ver, com a possibilidade de haver graves prejuízos na
CP, oriundos da conjugação habilidosa de bilhetes, que alguns clientes da
CP faziam, lesando a mesma
CP, porque contrária à disposição tarifária em vigor, concordassemos ou não com ela.
4 - Depois de no ponto 3 fazermos a distinça, sobre a notícia do Engº Nélson Oliveira em foco nesta News Release, desejamos dizer que estamos a 100% de acordo e que consideramos um dos problemas que mais urge ultrapassar e que os clientes da
CP não podem passar por esta situação, porque CLIENTES e que a
CP deseja que o sejam sempre.
5 - Sem nos extendermos, porque não oportuno, devemos dizer que acompanhamos no início da década de 80/90 do século passado este fenómeno da partição das empresas ferroviárias, feito por elas mesmas, sem directivas da UE como agora acontece e que fomos sempre favoráveis, como os exemplos da
RENFE,
SNCF, SNCB, NS, FS entre outras e um pouco relutantes à forma, como inicialmente a DB, SBB CFF FFS, ÖBB, BR também fizeram. A
CP também o fez, com as suas unidades de negócios, que foram baptizadas e rebaptizadas com designações menos felizes, como por exemplo, se via na parte de cima do frontal das UQE 3500 da hoje CP Lisboa, que fazia inscrever por extenso (horrível) a designação USGL Unidade de Suburbanos da Grande Lisboa). Hoje temos em concreto na exploração com comboios suburbanos, a
CP Lisboa e
CP Porto, penso que são designações erradas, deve sim, e sabemos bem do que falamos, uma unidade de negócio que trate só desses comboios mas ter um nome comum, que abrangia então Lisboa, Coimbra e Porto. Como se sabe não há
CP Coimbra, o que é uma aberração, face à actual disposição organizacional. Quanto à
CP Regional, é a melhor designação e não deve ser alterada. Quanto à
CP Longo Curso, pensamos também não ser feliz, pois de modo correcto deveria ser
CP Grandes Linhas. Portanto, estamos de acordo com a existência de todas estas unidades de negócios, com vista e somente, para uma racionalização e organização dos serviços prestados,
mas nunca, a pensar numa PRIVATIZAÇÃO, porque nehuma destas unidades, deverá algum dia ser isso mesmo, privatizada. No que toca às tarifas a praticar, devia ser como antigamente em que na origem se comprava com o mesmo título de transporte, uma viagem para qualquer estação da rede, o que e muito bem, já não é possível hoje fazer como diz o Engº Nélson Oliveira. Que o pessoal da tracção e revisão esteja afecto a cada UN e que cada tenha uma tenha o seu próprio parque de material circulante, só é bom para a
CP e não tem que ver com os seus clientes nem lhes diz respeito, agora o que não pode acontecer (e acontece infelizmente, com graves prejuízos e perdas de clientes pontuais (ou não)) é que a
CP obrigue os seus clientes (a sua mais-valia) a passar por estas situações, que como bem diz o presidente da APAC, não acontece lá fora.
6 - Por fim, não transcrevendo aqui, a fim de não estender mais o texto desta News Release, não queremos deixar de criticar os comentários que no site do Público são feitos às pessoas com insultos e insinuações, isso não estamos de acordo, pois por exemplo discordamos também como essas pessoas fazem nos seus comentários e não nos passa pela cabeça, insultar e ofender o Engº Cardoso dos Reis (presidente da
CP) e toda a sua equipa. Temos que ser razoáveis, mas não somos ingénuos e por isso sabemos, que comentários com acesso livre, já se sabe aquilo em que resulta. Dando um testemunho final da nossa coerência, já os leitores sabem que nunca aceitamos nem aceitaremos a existência da RAVE e isso não é um pensamento nosso agora, porque nos convém, não, há dezenas de anos que estudamos tudo na área ferroviária e sempre assim pensamos, quando naquele dia, lemos pela primeira vez o diploma legal no Diário da República que cria a RAVE, com a assinatura do Engº Guterres (que era o Primeiro-ministro) e de José Sócrates, entre outros ministros. Sobre Guterres, criticamos severamente a sua irreflectida atitude, que hoje é causadora da história e novela maldita em que se tornou o projecto do TGV em Portugal, com enormes prejuízos de muitos milhões de euros, mas como todos sabem, nunca nos passou pela cabeça insultar ou ofender as pessoas que estiveram e estão à frente da RAVE, desde que ela foi criada, ou seja, muito diferente, se por exemplo, o autor e responsável deste blogue, Luís Moreira, fosse na altura em que a RAVE foi criada, presidente da
CP ou da
REFER, membro do CG ou do CA das mesmas ou um alto quadro técnico também das mesmas e fosse convidado pela tutela (leia-se Governo, via MOPTC) para presidir à RAVE, nunca aceitaria, dizendo que era (e É) um total absurdo e aberração a sua existência, pelo que pensamos, que deviam ter procedido assim, não aceitando, todos os gestores que oriundos da
CP e
REFER, um dia por lá passaram e que daqui a alguns anos, certamente com honestidade, vão dizer que a RAVE realmente nunca devia ter existido. Nisso, o governo espanhol, mais a
RENFE e a GIF/ADIF, assim como o governo francês, mais a
SNCF e a RFF, assim como outros países europeus, nunca cometeram (porque sabiam o que estavam a fazer) esse tremendo erro que nós cometemos e que nunca quisemos apagar.

Luís Moreira
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